Psicanálise Kleiniana



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IDENTIFICAÇÃO

ROTEIRO

1-Introdução.
2-Definição de identificação.
3-Identificação primária.
4-Identificação com o agressor.
5-Identificação projetiva.
5.1- Definição.
5.2- Diferença entre projeção e identificação projetiva.
5.3- Identificação projetiva normal e anormal.
5.4- Objetos internos, assimilação.
5.5- O manuseio na clínica.
6-O Ego e Self na visão Kleiniana.
7-Bibliografia.


1-INTRODUÇÃO.
São tantos ensaios na área de psicanálise que poderia escolher através do “tema livre”, tais como: o inconsciente, a transferência, resistência, mecanismos de defesa, a clínica psicanalítica, etc. Entretanto um tema me atraía, devido a pouca leitura e pesquisa: a identificação. Porém durante as aulas de psicanálise, tendo o viés kleiniano marcante, ficou evidenciado que a “Identificação Projetiva” foi um tema importante e o trampolim para a evolução psicanalítica na parte ulterior da carreira de Melanie Klein (1945-60) e para as escolas psicanalíticas subseqüentes. Logo, o tema principal será Identificação, e daremos ênfase a Identificação Projetiva.
À medida que a psicanálise nos Estados Unidos começou a perder terreno e status, novos aspectos da psicologia do ego (ego psycology) se desenvolveram. Uma das áreas de interesse situou-se na experiência do self; outro interesse correlacionado voltou-se para as relações objetais (Greenberg e Mitchell, 1983). Em resultado disso, um certo interesse dirigiu-se para a Escola Britânica de psicanálise, com o exame, entre outras coisas, da “identificação projetiva”. Nesse processo, o conceito foi retirado do arcabouço global da teoria kleiniana e utilizado no arcabouço teórico desenvolvido nos Estados Unidos.
No processo, negligenciaram-se todos os tipos de aspectos da identificação projetiva, quais sejam, a variedade particular dela que se acha em operação, seu propósito intrapsíquico específico, ser a projeção feita com ódio ou não, o grau de onipotência das fantasias e, em verdade, houve o negligenciamento da natureza fantasiosa do mecanismo. À medida que o conceito transforma-se em um engodo para descrever todos os fenômenos interpessoais, há o perigo de um rápido declínio em sua utilidade. Infelizmente, o conceito de identificação projetiva mostrou se uma fonte tão poderosa de confusão de pensamento quanto o mecanismo que indica.
A evolução diferente da psicanálise nos Estados Unidos (psicologia do ego) veio a enfatizar os aspectos adaptativos do ego e as influências interpessoais ou culturais no desenvolvimento. Conseqüentemente, a “identificação projetiva” foi adotada por seu valor como descritiva dos estados de fusão entre o ego e seus objetos que são encontrados em pacientes psicóticos ou fronteiriços, ou como um conceito interpessoal que contribui para a compreensão psicanalítica dos processos adaptativos e da influência do contexto social.
A identificação (Identifizierung) é uma das categorias mais fundamentais da teoria e da metapsicologia freudianas. Segundo os momentos de desenvolvimento da teoria e de sua articulação com outras categorias, seu sentido é profundamente modificado. Só a podemos abordar, portanto, em relação a outros termos: incorporação (Einverleibung), introjeção (Introjektion), investimento (Besetzung) e posição (Einstellung), categoria menos conhecida. Inicialmente, poderíamos dizer que as identificações são uma lenta hesitação entre o “eu” e o “outro”, ao passo que a identidade é finalmente encontrar um eu que poderia (ilusoriamente) estar livre de qualquer relação de objeto. Quando se toma do outro, não se corre o risco de deixar de ser si mesmo? Não remete isto ao oposto da introjeção, que é a projeção, a recusa de reconhecer uma identidade de sentimentos ou de pensamentos entre si mesmo e o outro, ou a expulsão sobre o outro do que não se reconhece em si mesmo?
Um primeiro aspecto do mecanismo da identificação foi antecipado desde 1895 nos “Estudos sobre a histeria”, com o caso Elisabeth von R.; é aquele da oportunidade e aptidão para tomar o lugar do outro. Elisabeth von R. “tomava o lugar (ersetze) de um filho e de um amigo” junto a seu pai doente. Ao tomar o lugar de um outro, ao substituir um outro (Ersatz) por obediência a seu pai que a destina a essa posição (Einstellung) psíquica impossível, Elisabeth von R. é levada à impotência. Não consegue sair dela, o que no sentido próprio significa que não pode abandonar esse lugar que lhe foi atribuído e que torna sua identidade sexual impossível. Nesse nível, a identificação é a capacidade de ocupar lugares e posições psíquicas diferentes.
Um segundo aspecto da identificação aparece em 1905 nos “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade”. A seção II do capítulo 2 trata de um primeiro estádio e de um primeiro campo de erotização, o estádio oral. Freud distingue duas funções da boca:
a) A função de sugar, de beber o seio;
b) A função de chupar, função de erotização que, mais-além do sugar, pode ganhar autonomia para fazer da boca uma zona erógena e, por isso mesmo, uma zona histerógena.
Nesse prazer, que ultrapassa as pulsões de autoconservação, elabora-se também o primeiro orifício; essa abertura, esse buraco no corpo, permite fazer comunicar o interior e o exterior e, portanto, incorporar fragmentos do mundo externo para transforma-los em si mesmo.
Bion emprestou um novo entendimento ao crucial fenômeno da identificação projetiva. Na concepção original de M. Klein, esse fenômeno ficou virtualmente restrito a uma forma de descarga se sentimentos insuportáveis dentro do outro (a mãe, no caso do filho, ou o terapeuta, na situação analítica), assim como também Klein postulou que as identificações projetivas da criança visavam penetrar dentro do corpo da mãe para lá dentro dela poder controlá-la e tomar posse de seus “tesouros” (pênis, bebês, fezes, etc.). Bion, indo muito além, também considerou que a identificação projetiva pode ter um uso estruturante, nesse caso, ele a chama de “realista”, ou um uso patológico, quando então ele a denomina como “excessiva”, sendo que o excesso tanto é em termos quantitativos como, e principalmente, pela qualidade de onipotência. No entanto, a concepção mais importante de Bion é que mesmo essa identificações projetivas “excessivas” podem estar cumprindo, na situação analítica, o importantíssimo papel de uma “comunicação primitiva”. Isto é, o paciente inconscientemente espera que o analista exerça a função de continente e pela decodificação dos efeitos contratransferenciais nele despertados por aquelas identificações projetivas na sua mente possa exercer a função-alfa de dar um significado e uma nomeação para aquelas vivências emocionais que estavam acumuladas no psiquismo do paciente sob uma forma que Bion chama de um “terror sem nome”.

2-DEFINIÇÃO DE IDENTIFICAÇÃO.
É um processo psicológico pelo qual um sujeito assimila um aspecto, uma propriedade, um atributo do outro e se transforma, total ou parcialmente, segundo o modelo desse outro. A personalidade constitui-se e diferencia-se por uma série de identificações.
O termo identificação deve ser diferenciado de termos próximos, como incorporação, introjeção e interiorização.
Incorporação e introjeção são protótipos da identificação ou, pelo menos, de algumas modalidades em que o processo mental é vivido e simbolizado como uma operação corporal (ingerir, devorar, guardar dentro de si, etc.).
Entre identificação e interiorização a distinção é mais complexa porque põe em jogo opções teóricas quanto à natureza daquilo a que o sujeito se assimila. De um ponto de vista puramente conceitual, podemos dizer que a identificação se faz com objetos – pessoa (“assimilação do ego a um ego estranho”), ou característica de uma pessoa, objetos parciais – enquanto a interiorização é a de uma relação intersubjetiva. Resta saber qual desses dois processos é anterior. Podemos observar que geralmente a identificação de um sujeito A com um sujeito B não é global, mas sim “secundum quid” o que remete para um determinado aspecto da relação com ele; eu não me identifico com o meu patrão, mas com determinada característica dele que está ligada à minha relação sadomasoquista com ele. Mas, por outro lado, a identificação permanece sempre marcada pelos seus protótipos primitivos: a incorporação incide em “coisas”, pois a relação confunde-se com o objeto em que ela encarna; o objeto com que a criança mantém uma relação de agressividade torna-se como que substancialmente o “mau objeto”, que é então introjetado. Por outro lado, e esse é um fato essencial, o conjunto das identificações de um sujeito forma nada menos que um sistema relacional coerente; por exemplo, no seio de uma instância como o superego, encontram-se exigências diversas, conflituais, heteróclitas. Do mesmo modo, o ideal do ego é constituído por identificações com ideais culturais não necessariamente harmonizados entre si.
Como o termo identificação pertence também à linguagem comum e à linguagem filosófica, convém começar por definir, do ponto de vista semântico, os limites do seu emprego no vocabulário da psicanálise.
O substantivo identificação pode se tomado num sentido transitivo, correspondente ao verbo identificar, ou num sentido reflexo, correspondente ao verbo identificar-se. Esta distinção está presente nos dois sentidos do termo diferenciados por Lalande: (a) A ação de identificar, isto é de reconhecer como idêntico; ou pelo número - por exemplo, ‘a identificação de um criminoso’ –, ou pela espécie – por exemplo, quando se reconhece um objeto como pertencente a certa categoria. (b) O ato pelo qual um indivíduo se torna idêntico a outro, ou pelo qual dois seres se tornam idênticos.
Em Freud vamos encontrar estas duas acepções. Ele descreve como característico do trabalho do sonho o processo que traduz a relação de semelhança, o “tudo como se”, por uma substituição de uma imagem por outra ou “identificação”. É justamente esse o sentido (a) de Lalande, mas a identificação não tem aqui valor cognitivo: é um processo ativo que substitui uma identidade parcial ou uma semelhança latente por uma identidade total.

3-IDENTIFICAÇÃO PRIMÁRIA.
É o modo primitivo de constituição do sujeito segundo o modelo do outro, que não é secundário a uma relação previamente estabelecida em que o objeto seria inicialmente colocado como independente. A identificação primária está em estreita correlação com a chamada relação de incorporação oral.
A identificação primária opõe-se às identificações secundárias que vêm se sobrepor a ela, não apenas na medida em que ela é a primeira cronologicamente, mas também na medida em que não se teria estabelecido consecutivamente a uma relação de objeto propriamente dita e seria “a forma mais originária do laço afetivo com um objeto”. “Logo no início da fase oral primitiva do indivíduo, o investimento de objeto e a identificação talvez não se devam distinguir uma da outra”.
Esta modalidade do laço da criança com outra pessoa foi descrita principalmente como primeira relação com a mãe, antes de a diferenciação entre ego e alter ego estabelecer-se solidamente. Esta relação seria evidentemente marcada pelo processo da incorporação primária a um estado absolutamente indiferenciado e anobjetal.
A identificação como forma de defesa desenvolve-se primeiramente a partir de uma vaga relação com o mundo externo. Apesar de a libido, na fase oral, estar dirigida para um objeto do mundo externo, ainda assim este objeto não está localizado no espaço, fora do ego. Quando há um aumento da excitação libidinal, cujo órgão de descarga, durante a fase oral ou canibalística, é predominantemente a boca, a satisfação, a remoção do estado desagradável de excitação, ocorre normalmente através da sucção. O estímulo é eliminado ao ser satisfeito através de uma ação motora real, levando ao relaxamento. Poder-se-ia considerar este processo também como uma defesa, uma vez que, na verdade, ele remove o estímulo desagradável. Se não puder ocorrer essa ação, como, por exemplo, quando o seio materno não é oferecido ao lactante, a mãe que proporciona prazer, ou o seio, é incorporada psiquicamente pelo ego. A criança talvez alucina uma satisfação no ato de sucção, isto é, o aparelho perceptivo do ego é catexisado com energia psíquica e o representante psíquico do órgão tátil, da membrana mucosa da boca e dos lábios, é estimulada e satisfeita a partir de dentro. O propósito da introjeção do seio materno é preenchido, se o estão doloroso da excitação for assim removido. A identificação, que é chamada também de introjeção, constitui assim a forma mais primitiva de repelir estímulos que, ultrapassando certa intensidade, teriam um efeito traumático. A defesa é facilitada num grau especialmente elevado pela ambivalência que caracteriza a identificação no nível oral. Poder-se-ia dizer que a libido faz uso do objeto para remover o estímulo instintivo de forma adequada, através da incorporação do objeto pelo ego. A criança se apodera oralmente do objeto e suprime a distância entre ela e o objeto, a fim de repelir a excitação instintiva e atingir o repouso almejado.
A identificação como forma de defesa desempenha um papel diferente na fase narcisista e pré-genital do que na fase genital e objetiva o desenvolvimento da libido. Na fase genital, ela precisa preencher uma das mais importantes tarefas de toda a vida do indivíduo, ou seja, ajudar na formação do superego, e despojar as tendências da constelação edípica de seu caráter instintivo direto. Após o menino conseguir incorporar o pai amado e odiado, ao identificar-se com ele e fazer próprias as exigências e proibições do pai, torna-se capaz de renunciar as suas tendências sexuais pela mãe, assim como à função de seus genitais. Instala-se com isso o período de latência. Através da identificação, por isso, consegue-se a defesa contra as demandas instintivas diretas, pois a mãe não é mais considerada um objeto sexual. Isto, entretanto, não implica que, com a identificação, cessem todas as relações com o objeto e a realidade. Na fase genital, ela exclui apenas uma relação – a sensual. Todas as outras permanecem intactas; com a ajuda do superego incipiente as relações sociais continuam a se desenvolver.
Por isso, precisamos distinguir uma identificação parcial de uma total. Com a ajuda da primeira apenas uma determinada relação com o objeto é repelida; com a ajuda da última todas as relações são repelidas. A primeira é observada na histeria, a última em neuroses do tipo narcísico. Pacientes que atingiram a fase genital e formaram relações de objeto duráveis tendem mais a desenvolver identificações parciais, enquanto aqueles pacientes que não atingiram a fase genital e objetiva ou atingiram a fase genital, porém não abandonaram o narcisismo, tendem mais a desenvolver identificações totais.

4-IDENTIFICAÇÃO COM O AGRESSOR.
A expressão identificação com o agressor não figura nos escritos de Freud, mas houve quem observasse que ele descreveu o seu mecanismo, particularmente a propósito de certas brincadeira de criança, no capítulo III, de Além do princípio do prazer.
É um Mecanismo de defesa isolado e descrito por Anna Freu (1936). O sujeito, confrontado com um perigo exterior (representado tipicamente por uma crítica emanada de uma autoridade), identifica-se com o seu agressor, ou assumindo por sua própria conta a agressão enquanto tal, ou imitando física ou moralmente a pessoa do agressor, ou adotando certos símbolos de poder que o caracterizam. Segundo Anna Freud, esse mecanismo seria predominante na construção da fase preliminar do superego, pois a agressão mantém-se então dirigida para o exterior e não se voltou ainda contra o sujeito sob a forma de autocrítica.
Ferenczi recorre à expressão identificação com o agressor num sentido muito especial; a agressão considerada é o atentado sexual do adulto, que vive num mundo de paixão e culpa, à criança supostamente inocente. O comportamento descrito como resultado do medo é uma submissão total à vontade do agressor; a mudança provocada na personalidade é “ a introjeção do sentimento de culpa do adulto”.
Daniel Laganche prefere situar a identificação com o agressor na origem da formação do ego ideal; no quadro do conflito de demandas entre a criança e o adulto, o sujeito identifica-se com o adulto dotado de onipotência, o que implica o desconhecimento do outro, a sua submissão, até mesmo a sua abolição.
Anna Freud vê em ação a identificação com o agressor em contextos variados (agressão física, crítica, etc.) e a identificação pode intervir antes ou depois da agressão temida. O comportamento observado é o resultado da uma inversão de papéis: o agredido faz-se agressor.

5-IDENTIFICAÇÃO PROJETIVA.
A expressão identificação projetiva foi utilizada por Melanie Klein num sentido muito especial que não é sugerido à primeira vista pela associação destas duas palavras, ou seja, uma atribuição a outrem de certos traços de si próprio ou de uma semelhança global consigo mesmo.
Foi a expressão introduzida por Melanie Klein para designar um mecanismo que se traduz por fantasias em que o sujeito introduz a sua própria pessoa (his self) totalmente ou em parte no interior do objeto para o lesar, par ao possuir ou para o controlar.
Melanie Klein descreveu em A psicanálise da criança, fantasias de ataque contra o interior do corpo materno e de intrusão sádica nele. Mas só mais tarde (1946) introduziu a expressão “identificação projetiva” para designar “uma forma especial de identificação que estabelece o protótipo de uma relação de objeto agressiva”.
Este mecanismo, estreitamente relacionado com a posição paranóide - esquizóide, consiste numa projeção fantasística para o interior do corpo materno de partes clivadas da própria pessoa do sujeito, e mesmo desta na sua totalidade (e não apenas maus objetos parciais), de forma a lesar e controlar a mãe a partir do interior. Esta fantasia é a fonte de angústias como a de estar preso e ser perseguido dentro do corpo da mãe; ou ainda a identificação projetiva pode, em compensação, ter como conseqüência que a introjeção seja sentida “como uma entrada à força do exterior no interior como castigo de uma projeção violenta”. Outro perigo é o ego encontrar-se enfraquecido e empobrecido na medida em que se arrisca a perder, na identificação projetiva, partes “boas” de si mesmo; é assim que uma instância como o ideal do ego poderia então tornar-se exterior ao sujeito.
M. Klein e Joan Riviere constatam a ação de fantasias de identificação projetiva em diversos estados patológicos como a despersonalização e a claustrofobia.
A identificação projetiva surge pois como uma modalidade da projeção. Se M. Klein fala aqui de identificação, é na medida em que é a própria pessoa que é projetada. O emprego kleiniano da expressão identificação projetiva é conforme ao sentido estrito que se tende a reservar, em psicanálise, ao termo “projeção”: rejeição para o exterior daquilo que o sujeito recusa em si, projeção o que é mau.

5.1- DEFINIÇÃO.
É o protótipo do relacionamento objetal agressivo, representando um ataque anal a um objeto por forçar “partes do ego” neste, a fim de apoderar-se de seus conteúdos ou controla-lo, ocorrendo na posição esquizoparanóide, a partir do nascimento. Trata-se de uma “fantasia distanciada da consciência”, que traz consigo uma crença de que certos aspectos do self acham-se situado alhures, com um conseqüente esvaziamento e senso enfraquecido do self e da identidade, chegando a ponto da despersonalização. Sentimentos profundos de estar perdido ou um senso de aprisionamento podem dela resultar.
Sem uma introjeção concomitantemente por parte do objeto em que se projeta, tentativas cada vez mais forçadas de intrusão resultam em formas extremadas de identificação projetiva. Estes processos excessivos conduzem a distorções graves de identidade e às experiências perturbadas do esquizofrênico.
Em 1957, Klein sugeriu que a inveja achava-se profundamente implicada na identificação projetiva, que então representa o ingresso forçado em outra pessoa, a fim de destruir suas melhores qualidades. Pouco depois Bion (1959) fez distinção entre uma forma normal de identificação projetiva e outra patológica e outros autores elaboraram este grupo de “muitos processos distintos mas, ainda assim, relacionados”. A compreensão maior da identificação projetiva tem sido a área de maior importância subseqüentemente desenvolvida pelos kleinianos.

5.2- DIFERENÇA ENTRE PROJEÇÃO E IDENTIFICAÇÃO PROJETIVA.
A expressão “projeção” veio a ser confundida com “identificação projetiva”. A distinção entre os dois termos é com freqüência um grande mistério para muitos que abordam o tópico pela primeira vez. A verdade é que, historicamente, ambas as expressões foram usadas por maneiras que parcialmente se sobrepõem para abranger fenômenos que não são inteiramente distinguidos.
O uso inicial que Freud fez do termo “projeção” referia-se a “um abuso do mecanismo de projeção para fins de defesa” e descreveu como as idéias de determinada pessoa podem ser atribuídas a alguém mais, criando assim um estado de paranóia.
Há vários sentidos em que o termo “projeção” é utilizado por Freud: percepção, projeção e expulsão, externalização de conflitos, projeção e identidade e projeção de partes do self. Para Klein o termo projeção foi empregado tendo muitos significados: projeção do objeto interno, desvio da pulsão de morte, externalização de um conflito interno e projeção das partes do self.
Para Klein a identificação projetiva constitui uma visão mais tradicional da projeção, na qual parte do self é atribuída a um objeto. Assim, parte do ego – um estado mental, por exemplo, tal como uma raiva indesejada, o ódio ou outro sentimento mau – é vista em outra pessoa e completamente repudiada (negada).
M. Klein contribuiu consideravelmente para identificar a projeção do superego durante sua importante consideração da natureza do brincar e do simbolismo. A externalização para o mundo externo foi inicialmente envolta em termos da externalização do superego ou partes dele, de vez que, por essa época, o mundo psicanalítico achava-se preocupado em assimilar a nova teoria de Freud (1923) do superego, e Klein exemplificava com George (seis anos de idade): “Três partes principais achavam-se representadas em seus jogos: a do id e as do superego, em seus aspectos persecutórios e de ajuda”.
Neste estágio, Klein achava-se inconfortavelmente tentando casar a idéia de Abraham de objetos expelidos desde dentro com a teoria de Freud do superego (o único objeto interno que Freud reconhecia). Até 1946, a ênfase do trabalho de Klein incidiu sobre o destino do objeto, algo grandemente realçado, em 1935, pela teoria da posição depressiva. O destino das partes do self achava-se menos em evidência no pensamento de Klein até Fairbairn apontar isso. Ela concentrou-se então na fragmentação do ego nos processos esquizóides e no destino projetivo desses fragmentos. Eles podiam ser vistos como identificados com objetos externos mediante um processo de projeção de algum tipo, a que ela deu o nome de “identificação projetiva”. Escolheu esta expressão porque, durante algum tempo, houvera um prolongado debate entre os kleinianos e outros analistas a respeito da relação existente entre a introjeção e a forma de identificação baseada na incorporação (assimilação). A identificação projetiva parecia oferecer a possibilidade de um significado simétrico, mas suas ramificações não tornaram real essa esperança.
Partes do ego (self) são projetadas com o objeto interno. Isto é enfatizado na definição que Klein fornece da identificação projetiva, a projeção de um objeto capaz de conter uma projeção é um pré-requisito para projetar-se parte do self no objeto externo.
O desenvolvimento do ego dá-se, em grande parte, mediante a introjeção de objetos, no que vem a ser uma integração, mais ou menos estável, de objetos, no que vem a ser uma integração, mais ou menos estável, de objetos introjetados assimilados dentro do ego e sentidos como pertencentes a ele, que é em grande parte estruturado por eles. Ao mesmo tempo, os objetos externos são construídos mediante projeções, no mundo externo, de objetos derivados parcialmente da fantasia inconsciente e, em parte, de experiências anteriores de objetos. Estes objetos no mundo externo são assim construídos, em parte, a partir de aspectos inerentes do ego (fantasia inconsciente), juntamente com características reais dos objetos presentes e passados. Este amálgma, quando introjetado, pode então ser assimilado como parte do ego (assimilação) ou permanecer sendo um objeto interno aparentemente separado do ego ou até mesmo estranho a ele.
Dessa maneira, tanto o ego quanto os seus objetos são construídos a partir de graus variados de mistura e integração do self e do mundo externo. As experiências de quando são partes do self ou de quando são separados como objetos internamente – ou externamente – são muito fluidas e variam no tempo, exigindo uma constante análise do processo das relações objetais internas e externas.

5.3- IDENTIFICAÇÃO PROJETIVA NORMAL E ANORMAL.
Bion estabeleceu ser complexo a diferença entre a identificação projetiva normal e anormal, dependendo do grau de violência na execução do mecanismo.
Um dos objetivos alternativos da identificação projetiva é evacuar de modo violento um estado mental penoso, conduzindo a um ingresso forçado em um objeto, na fantasia, para alcançar alívio imediato, e, amiúde, com o objetivo de um controle intimidador do objeto. O outro é introduzir no objeto um estado mental, como meio de comunicar-se com ele a respeito desse estado. O objeto deixa de ser independente e dá-se uma fusão do self com o objeto e isto representa, entre outras coisas, uma defesa contra a separação, a necessidade e a inveja.
A distinção entre psicótico e não-psicótico foi importante. Klein freqüentemente fora criticada por reivindicar que as crianças normalmente passavam por um período de psicose em seu desenvolvimento. Esta distinção claramente refutava tal crítica e descrevia aspectos clínicos para demarcar um uso de mecanismos psicóticos no desenvolvimento “normal” e o caráter psicótico de seu emprego. As marcas distintivas do uso patológico, anormal, da identificação projetiva são o grau de ódio e violência da cisão e da intrusão; a qualidade de controle onipotente e, portanto, de fusão com o objeto; a quantidade de ego que é perdida; e o objetivo específico de destruir a percepção especialmente da realidade interna.
A identificação projetiva “normal” tem o objetivo da comunicação e da empatia, e desempenha seu papel na participação na realidade social.

5.4-OBJETOS INTERNOS, ASSIMILAÇÃO.
O ego não se acha semopre, permanentemente, em estado de identificação com seus objetos. Isto varia de ocasião para ocasião, de acordo com o contexto. No trabalho, uma pessoa pode identificar-se intensamente com algum superior, enquanto que, de volta ao lar, esse mesmo homem pode identificar-se com o pai, quando brinca com os filhos. A fluidez de tal estrutura conforma-se à adaptabilidade das pessoas ao seu contexto imediato. Ela representa “a outra extremidade de um contínuo que se inicia pela fragmentação”.
De modo bastante diferente, o ego pode tender a cindir-se por maneiras mais violentas. Assim, conjuntos diferentes de idéias ou sentimentos podem existir de modo contemporâneo e incompatível. Sob tensão, o ego tende a separar-se, comumente segundo as linhas de clivagem, por assim dizer, dos objetos que foram assimilados. Contudo, processos mais ativos de cisão podem se dar com fragmentação considerável, assim como distúrbios do pensamento e de todas as outras funções.
A estrutura do mundo interno é fortemente influenciada pela identificação projetiva, quando partes do ego são projetadas para dentro de objetos externos. Isto cria uma estrutura narcísica em que o ego se acha em identificação com objetos externos que são considerados como sendo o ego ou parte dele.
Em distúrbios de personalidades, o mundo interno pode vir a estruturar-se de acordo com as pulsões primárias. Os aspectos negativos da personalidade reúnem-se e são mantidos, como se por violência, sob a forma de uma espécie de gangue da Máfia. Esta estrutura interna negativa é uma forma interna, organizada e duradoura, da reação terapêutica negativa. Esta organização tiraniza a personalidade, e especialmente as suas partes boas, que são amiúde sentidas como aprisionadas, intimidade e inativadas. Isto com freqüência se mostra pela motivação para o tratamento tornando-se oculta ou inconsciente. A transferência vem a tornar-se perversa e utilizada como se o fosse para o bem, mas, na realidade, é usada para fins tortuosos, dedicados a estragar o tratamento e a frustrar a mudança.

5.5- O MANUSEIO NA CLÍNICA.
O paciente muitas vezes vê no analista (este lugar do Sujeito Suposto a Saber), sentindo inveja, ao mesmo tempo em que o admira. Vemo-lo, então, encetando a análise e (a seu ver) conseguindo identificar-se, satisfatoriamente, com o objeto que inveja e admira. Assim, por conta da introjeção que entende ter alcançado, sente-se senhor da agenda, do que é ou não importante a considerar, da duração das sessões, desobrigado de pagar as sessões, etc.
Quando age assim, desaparecem as manifestações explícitas de inveja, que só retornam quando o analista consegue interpor uma observação que resulte numa separação entre o self e o objeto.
Há também, aqueles que, por conta da inveja, adotam o parasitismo, ou seja, presumem estar instalados dentro do analista, passando a viver da capacitação do profissional, que será, então o seu Ego.
Observando-se o fenômeno da Identificação Projetiva, descobre-se, como sua conseqüência, o indivíduo a relacionar-se com um objeto, em termos de auto-relação, ou seja, ignorando o não-self. Por isso mesmo, vêmo-lo a não tomar conhecimento do que ultrapasse os limitas do que quer que tenha sido projetado, ou seja, aquilo que esteja fora do seu controle, por não possibilitar o forçamento ou a persuasão a desempenhar o que quer que ele queira impor.

6-O EGO E SELF NA VISÃO KLEINIANA.
Em 1932, Klein disse que a função primária do ego era o desvio da pulsão de morte para fora, no sentido de um objeto externo que é então temido como perseguidor, o mecanismo de projeção (superego). Em 1935, começou a encarar a introjeção do objeto bom como sendo o fundamento do ego (posição depressiva e esquizoparanóide). Em 1957, ela descreveu a primeira função do ego como sendo uma forma de cisão, a base da capacidade de julgamento (Freud, 1925), ainda que, inicialmente de um tipo muito narcísico (inveja e estados de confusão).
Ela tendeu a utilizar intercambiavelmente as expressões “self”, “ego” e “sujeito”. O termo “ego” (e também “sujeito”) é empregado como complemento de “objeto”, enquanto que o “self”, argüiu mais tarde, é usado para abranger a totalidade da personalidade, que inclui não apenas o ego, mas também a vida pulsional que Freud chamou de “id”. Já o ego é a parte organizada do self.
Klein não utilizou o termo “ego” de maneira tão precisa quanto Freud veio a faze-lo com o seu modelo estrutural de ego, id e superego e com freqüência intercambiou-o com self. Para Klein, o ego já existe no nascimento, tem uma fronteira e identifica objetos. Possui certas funções de tipo excepcionalmente primitivo, tais como separar o “eu” do “não eu”; discriminar entre o bom (sensações boas) e o mau; fantasias de incorporar e expelir (introjeção e projeção), e a fantasia do acasalamento das preconcepções e realizações. Isto se acha em contraste com a psicologia do ego e a psicologia do self, que situam a origem do ego em alguns meses após o nascimento.
O termo self, com freqüência utilizada sinonimamente com “ego” por Klein, pareceria sugerir a experiência do sujeito, as suas fantasias a respeito de si próprio. Se o “ego” representa uma parte da estrutura da mente, objetivamente descrita, o self tende a representar o sujeito em suas próprias fantasias, descritas a partir de um ponto de vista subjetivo. O self tenderia então a expressar o aspecto relacional das teorias de Klein, como o faz o “sujeito”, o que é mais coerente com o emprego do termo “objeto”. É, entretanto, verdade que “ego”, “self” e “sujeito” são indeterminadamente intercambiáveis nos textos de Klein, algo que é um tanto diferente da visão da psicologia do ego, onde o self é uma representação investida com energia mental pelo ego (Hartmann, 1950; Sandler e Rosenblatt, 1962). A distinção feita por Hartmann deu posteriormente origem a um desenvolvimento da psicologia do ego conhecido pelo nome de psicologia do self (Kohut, 1971).
Enquanto que a análise clássica acha-se interessada no ego como sendo um órgão que busca a descarga das tensões pulsionais em alguma forma de satisfação e pode ser objetivamente descrito em termos de sua estrutura e função, Klein via-o de maneira diferente, qual seja, como a experiência que ele tem de si próprio. Ela descreveu isto em termos das fantasias que o ego tem de lutar com ansiedades experienciadas no curso de suas relações com objetos, as quais, embora sejam percebidas sob as cores das pulsões, criam um mundo de experiências, ansiedades, amores, ódios e temores, antes que estados de descarga. A luta do ego é no sentido de manter a sua própria integridade em face de suas penosas experiências de objetos que ameaçam com o aniquilamento.


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